Pular para o conteúdo principal

Editoriais sobre as condições objetivas e subjetivas da situação política internacional e sua influência no Brasil

Cancelando o Antipetismo #1: Dominação política


Ajude a combater o antipetismo, apoie a caravana Lula Livre. 


O antipetismo como ideologia de dominação de classe

O antipetismo é uma narrativa que inculca a idéia de que o PT seria um "inimigo público" a partir da veiculação massiva de notícias que associam o PT à corrupção, com a cobertura positiva dada por esta mídia golpista à condenação sem provas (inconstitucional) de lideranças petistas em processos judiciais de excessão.
Neste sentido, esta narrativa tenta convencer uma maioria de uma mentira. A de que o PT seja um inimigo da "sociedade", tal qual os demais partidos corruptos da classe capitalista. Para quem deixou de passar fome, conseguiu comprar sua casa, seu carro, colocou os filhos para estudar nos governos do PT, o discurso que o PT é "farinha do mesmo saco" se mede pela quantidade de farinha que pode comer. Convencer uma maioria a ir contra si mesma não é uma coisa fácil, a narrativa usada deve fazer sentido diante dos fatos, senão a comunicação é ineficiente. O convencimento insuficiente da população sobre esta ideia, de que o PT era seu inimigo, obrigou os golpistas a irem mais longe e prenderem Lula, que continuava favorito. Nos fatos da vida da maioria das pessoas pobres e trabalhadoras do Brasil, desde a deposição do PT da presidência, só tem havido perdas. O discurso antipetista, desta forma, é ideológico, atribuindo a sociedade em geral os interesses da classe minoritaria numericamente. O interesse em se livrar do PT, legitimado por uma narrativa que torna aceitável a perseguição ao PT é um atalho para a perseguição das classes oprimidas que se reconhecem no PT.
Para a classe trabalhadora, acreditar que o PT tenha se tornado o inimigo não a levaria mais para a esquerda, mas para fora da política. Afinal de que adianta disputar o poder político através de partidos se quando se chega lá em cima todos seriam corruptos?  É aí que entra o papel de organizações do movimento operário que legitimam o antipetismo - uma construção ideológica da outra classe. Há um paradoxo bem mais grave do que o do pobre de direita nisso. A superação ideológica da classe dominante se daria, segundo Marx, através da organização, de "classe em si" até "classe para si". É contraditório com sua própria razão de ser que organizações da classe trabalhadora estejam na linha de frente  contra os membros da sua própria classe ao invés de proporem a unidade para enfrentar a classe parasitária.

De forma que qualquer organização que vem da classe trabalhadora e do povo só pode ter uma posição solidária a um retirante nordestino, ex-metalúrgico que decidiu entrar coletivamente na política com outros militantes e se tornou presidente da república, pelo Partido dos Trabalhadores, com o apoio do povo e atualmente é um preso político. No entanto, a existência de organizações dos trabalhadores e movimentos sociais que possuem lideranças que se recusam a defender Lula é um fato. Os militantes destas organizações reproduzem o discurso de ódio ao PT nos espaços comuns dos movimentos sociais. A tolerância nos movimentos sociais ao discurso de ódio ao PT é um verdadeiro problema e precisamos falar sobre isso, que tem muito mais implicações do que parece, não sendo -nos fatos- expressão de uma divergência legítima entre membros de uma mesma classe, mas a reprodução no interior da classe trabalhadora do que existe de mais agressivo contra os trabalhadores e trabalhadoras.
Este é o primeiro artigo de uma série que pretende abordar o "antipetismo" por diversos ângulos, inclusive estabelecendo a diferença que existe entre desavenças de opinião e discurso de ódio. O discurso de ódio é abusivo e causa naqueles que são suas vítimas um profundo sofrimento emocional. Pretendemos tratar disso nesta série de textos como uma forma de constribuir para que, entre as vítimas da perseguição política ao PT, tenhamos cada vez mais consciência deste abuso.

O PT não é perfeito

Como todas as construções humanas o PT não é perfeito e, portanto, os erros cometidos pelo PT estão sujeitos a discussão. Mas uma discussão justa sabe que não existe um espectro de perfeição onde as organizações dos trabalhadores possam ser enquadradas. Todas são péssimas em algo e boas em outras coisas. O castigo, a punição, o ódio ao PT por seus erros, no interior dos oprimidos da sociedade, impede o diálogo entre iguais e a aprendizagem coletiva. Mas não é isto mesmo que fazem os amarelos? Quebram os laços de confiança que são, inclusive, a nossa única chance de sobreviver como indivíduo num mundo opressor? A contradição maior dos que legitimam a perseguição ao PT é que, se Lula continuar preso, eles podem ser as próximas vítimas da perseguição política feroz que hoje tem o PT como alvo. E isto até mesmo alguns golpistas que defendem a liberdade de imprensa já perceberam. O "script" de todos os golpes inclui se livrar amanhã de quem está sendo útil hoje. O caso do Correio da Manhã é exemplar. Os ciristas e até mesmo os sindicalistas do Conlutas que se recusam a fazer a defesa de Lula e do PT estão defendendo a aniquilação de seu próprio futuro e, ainda, tentam nos arrastar nisto em fóruns de consenso, nos quais vetam a unidade em defesa dos petistas perseguidos.
Este problema, por sua vez, poderia ser enfrentado se o próprio PT e seus militantes nestes foruns defendessem os petistas perseguidos, mas não é o que vemos. Excetuando Lula, a defesa dos demais perseguidos do PT não encontra eco na própria direção do PT e volta e meia nos deparamos com declarações ou omissões de petistas em posições de liderança pública que tentam se diferenciar de petistas perseguidos. Ao fazerem isso, tratam como válidos os argumentos usados para perseguir  petistas, retirando da perseguição de um petista sua verdadeira dimensão coletiva, atribuindo a "culpa" ao indivíduo em questão, que teria cometido erros. Ao invés de combater o "antipetismo", estes líderes petistas conciliam com ele. Em nome de uma maior tolerância do PT a outros atores da sociedade, orientam os petistas nos movimentos sociais e no ambiente político a também não combaterem o discurso de ódio ao PT e aos petistas. Muitos militantes são levados, assim, a acreditar que o abuso que sofrem pode ser contornado sem se desgastarem na defesa dos seus e de si mesmos (como parte de um coletivo sob ataque), cedendo a uma unidade artificial, incapaz de forjar laços de solidariedade.
Como fruto da propaganda antipetista, uma parte dos trabalhadores dos Correios confrontados com reivindicações não atendidas durante os governos do PT foram levados a acreditar que o PT seria um inimigo. 

Nos movimentos em defesa dos Correios contra a privatização, pelos direitos e condições de trabalho que estão sendo destruídos depois do Golpe, o Partido dos Trabalhadores tem estado do lado da luta dos funcionários dos Correios, que são levados a reconhecer que ao aderirem ao "antipetismo" acabaram indo contra si mesmos. 

Esquerdismo infantil e a agressividade contra a direção do PT

A tolerância com um esquerdismo acusatório contra o PT e sua direção é sintoma de uma crise muito maior do que a causada pelo problema que atribuem aos que criticam, pois age, nos fatos, destruindo laços de solidariedade entre a maioria perseguida. Um discurso que atribui ao PT a "culpa" pela situação atual do país localiza a responsabilidade das direções petistas nas decisões tomadas pelo PT. Como não existe uma direção em abstrato, a responsabilidade final cairia nas costas da base do PT que continua mantendo esta direção como dirigente. Para o antipetismo, no fim das contas, acusação se volta para a própria classe que construiu o PT, considerada, pela maioria dos críticos ao PT, atrasada. E isso não é diferente na "esquerda", cujas denúncias ao PT ou à sua direção expressam preconceitos de classe arraigados na sociedade que podem ser confirmados pela pretensa superioridade intelectual, ideológica ou moral que dizem possuir. Voltaremos a isso em texto futuro.
-Alto lá! Bradariam os esquerdistas "radicais". - É vergonhoso que vocês usem o argumento de classe porque foi o PT que conciliou com a classe inimiga. Nosso discurso de ódio ao PT é ódio de classe contra as classes dominantes e, portanto, contra aqueles que conciliam com ela.
Aparentemente radical, esta posição não corresponde ao nível de consciência da classe trabalhadora em geral, e nem no particular onde estes antipetistas de "esquerda" possuem alguma base. A rejeição social artificialmente construída contra o PT é, na verdade, uma arma contra todas as organizações que se reivindicam da classe trabalhadora e não a prova que a base social que o PT representa está superando suas ilusões na conciliação de classes. Surfar nesta onda para atacar o PT é uma traição à classe que dizem defender.
A superação da consciência insuficiente de que a classe capitalista é abusadora e que portanto se utilizará de todos os meios que dispõe para destruir a resistência das classes oprimidas, inclusive de sua influência sobre os governos de partidos operários também é fruto da experiência. Alguns até podem adquirí-la em livros e na análise histórica de outros processos envolvendo governos de conciliação. Mas aqui se coloca a analogia com qualquer outro abuso. Aqueles que não possuem ilusões nos abusadores como podem ajudar aqueles que estão dentro de relacionamentos abusivos? O tratamento dos problemas não é neutro.
- Mas o PT conciliou por vontade própria e seus dirigentes sabiam o que estavam fazendo. Foi uma posição política consciente!
Sim, houveram várias decisões do PT em seu processo de conquista e manutenção de posições de poder no Estado brasileiro que conciliaram com abusos contra a classe que produz a riqueza. E todas estas decisões podem e devem ser questionadas pelos que sofrem suas consequências, lutando contra elas com os métodos da democracia operária. Mas nem mesmo estas decisões tornaram o PT um partido da classe inimiga e os ataques ao PT pelas instituições do Estado  em colaboração com o Departamento de Estado dos EUA confirma isto.

A contradição da luta pelo poder no Estado capitalista

" Como o Estado nasceu da necessidade de refrear os antagonismos de classes, no próprio conflito dessas classes, resulta, em princípio, que o Estado é sempre o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante que, também graças a ele, se toma a classe politicamente dominante e adquire, assim, novos meios de oprimir e explorar a classe dominada". 
A citação deste trecho de Lenin evoca a leitura do texto inteiro "Estado e Revolução", que é essêncial para começarmos a aprofundar a compreensão das contradições com as quais o Partido dos Trabalhadores esteve e está confrontado.
Assinalamos que um partido da classe dominada, ao conseguir o poder político via eleições neste Estado - o qual os capitalistas exercem sua dominação - não muda a natureza dele, nem da dominação de classe neste Estado.

As ilusões no capitalismo

A decisão que a direção do PT e Lula tomaram foi a de não mudar a configuração do Estado brasileiro, mesmo que existisse no interior do PT a discussão de que era necessária uma Constituinte que passasse as atuais instituições a limpo, dando voz ao povo. Os governos Lula e Dilma apostaram no não confronto com as atuais instituições, acreditando que elas deixariam o PT incluir, nas políticas públicas executadas, milhões de brasileiros que não chegavam nem a participar da produção social, alijados do mercado de trabalho e dos direitos basicos sobrevivência como alimentação e moradia, entre outros.
O conceito etapista desta proposição da alta liderança petista se mostrou irrealista. Sem alterar a configuração do Estado, aquilo que existia nele se voltou contra a inclusão daqueles que ao longo de décadas, séculos, tinham sido propositalmente excluídos. Neste sentido, a miséria e a matança no andar de baixo não é uma incompetência daqueles que ocuparam o poder até o PT chegar nele, mas resultado da sua competência, em, num país como o Brasil, mantê-lo inserido de forma subalterna na economia mundial. E é para que as coisas voltassem a ser como eram antes do PT que serve a guerra ideológica contra o PT. 
A ilusão de que o PT seria aceito pelos "players" internacionais e que seria possível um novo rearranjo internacional, mais inclusivo, para países como o Brasil foi reforçada durante os governos do PT pela voz dada a este partido nos foruns internacionais. Porta voz de "combate a fome" e "inclusão social", a liderança do PT acreditou que bastava  mostrar que era possível um capitalismo inclusivo. As ilusões petistas neste sentido se relacionam com a incompreensão da crise capitalista. Consciência insuficiente esta que não é só dos petistas, mas do conjunto da esquerda e da classe trabalhadora. Para grande parte dos intelectuais que alimentam a esquerda de analises econômicas, o capitalismo não está agonizando, ao contrário, teria conseguido, através da ciência, desenvolver as forças produtivas e, portanto, bastaria tornar o Estado inclusivo e participativo que resolveriam-se o resto dos problemas.  Acreditando nisso, militantes do PT em todos os níveis passaram, então, por um processo profundo de estudos e conferências sobre as condições de vida do povo, discutindo ideias e projetos que poderiam ser aplicados para minimizar os efeitos destrutivos do que o povo vivencia.
O Golpe em Dilma encerrou esta fase. Todos estes projetos estão sendo desmantelados sem que o conjunto do PT tenha discutido esta possibilidade, nem mesmo quando o golpe mostrou suas garras, prendendo Dirceu. A crença que a mudança de processos históricos de exclusão se resolvem por um processo linear acumulativo que trata dos problemas mais graves primeiro e vai  resolvendo os demais no caminho esbarra no fato do caminho para os oprimidos sempre ser fechado a força.
A compreensão insuficiente que nos trouxe até aqui excluía do real o problema da perseguição política que o povo pobre, a classe trabalhadora e seus partidos sempre sofrem dentro do sistema capitalista - mesmo nos governos do PT. Hoje, não sendo possível mais negá-la, há uma necessidade de ressignificação que vai muito além da discussão de políticas públicas, mas exige a compreensão do que é o Estado brasileiro em particular, o Estado capitalista no geral e a relação entre os Estados nacionais e o Imperialismo. De forma que os verdadeiros críticos à conciliação de classes se posicionam na compreensão coletiva - junto com os oprimidos do sistema - do conjunto de problemas que a classe enfrenta em seu processo de libertação. Quem, ao invés disso, concilia ou se cala diante das acusações, falsas ou preconceituosas, que as classes capitalistas fazem ao PT, torna-se - independente do verniz que usem - parte do abuso político aos trabalhadores e às trabalhadoras.






Comentários