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Editoriais sobre as condições objetivas e subjetivas da situação política internacional e sua influência no Brasil

Cancelando o antipetismo#2: Mulheres do PT



Discurso de ódio e perseguição ao PT
Recentemente publicamos um artigo no qual abordamos alguns problemas teórico-metodológicos para tratar o problema das perseguições políticas. A discussão que abrimos apenas se inicia, e tateamos ainda nas dificuldades de tratar o assunto com a abrangência que consideramos que tem.
Neste novo artigo da série de combate ao antipetismo, vamos nos apropriar dos elementos discutidos no texto Crise de praxis sobre a perseguição política e demonstrar como se aplicaria o modelo piramidal em fatos da vida que envolvem o antipetismo. 
A noção central é que a alocução de um discurso que desqualifica a vítima é uma das fases da perseguição. E reconhecemos na  desqualificação um instrumento de desconstrução da 'pessoa', da identidade e da autoridade de fala. É uma forma sutil e continuada de tortura psicológica que deixa, na melhor hipótese, cicatrizes profundas que podem ser mutilantes. Se não combatido, o discurso de ódio pode escalar para prisões e extermínio. E a cada ação mais violenta no topo da pirâmide, corresponde a um número maior de ações de “menor” impacto. A perseguição se legitima por um discurso que torna o alvo da perseguição um "outro" indesejado e não um "igual".
O discurso 'antipetista' seria o conjunto de vozes que, se for lhes dado algum crédito, levam a conclusão de que é desejável que o Partido dos Trabalhadores seja algo alheio a uma determinada comunidade.  Ao nível da "nação", o antipetismo visa legitimar a destituição abusiva do PT de posições de poder que conquistou e, escalando, o banimento do PT da vida pública, podendo culminar na própria eliminação física deste partido.
A prisão de Lula como ato máximo de perseguição a este partido - até agora - não significaria que o ponto máximo da perseguição política ao Partido dos Trabalhadores já possa ter sido atingido, mas que pode evoluir, caso essa prisão não se reverta com a anulação do processo político de "lawfare". O encadeamento dos fatos mostra que o que já foi considerado surpreendente foi sucedido por algo ainda pior e é assim desde a prisão de Dirceu, seguida pelo impeachment de Dilma. O assassinato de Marielle e a prisão de Lula, com menos de um mês de diferença entre os dois ainda mostra que, para a direita, toda esquerda é vermelha e igual. Na semana antes da soltura de Lula,  Lindbergh e Dilma sofreram ameças e Paulo Guedes anuncia que servidores filiados a partidos devem perder a estabilidade. 
Desde 2005, a militância petista sofre as consequências emocionais e políticas da alocução de um discurso que trata o PT como organização criminosa. É  justamente o grau de tolerância ao discurso de ódio ao PT aquilo que torna os ambientes que frequentamos mais tóxicos. Isto se aplica desde grupos que frequentamos no trabalho, na família, na vida social, cultural e religiosa, como também no ambiente político, em geral, e no ambiente da "esquerda", em particular.
Em muitos casos, o emissor do discurso de ódio ao PT ainda se justifica, dizendo que seu problema não é com aquele/a militante do PT que está no mesmo ambiente, mas com a "traição" do PT. Contudo, se há algo em que acreditamos - porque nunca vimos nada diferente é que o agressor pouco tem consciência da dor que causa. Neste caso, só quem pode dizer o quanto o discurso de ódio contra um partido que está tendo suas lideranças presas ou depostas é uma agressão pessoal a cada um de nós é quem a sofre. Nunca o contrário.
As ações judiciais e os ataques diretos a lideranças petistas pelas instituições do Estado ou mesmo pela indústria de difamações, deste ponto de vista ampliado, não seriam as únicas formas de perseguição ao PT. Há, tal qual no assédio no trabalho, uma perseguição horizontal. A perseguição ao PT teria, através da autorização ao discurso de ódio ao PT, o efeito de incidir sobre milhares de pessoas, que são ofendidas e discriminadas como membros de uma organização criminosa.
A abordagem destes problemas que pretendemos fazer tem este ângulo particular, falar da perseguição na base da pirâmide. Com isso pretendemos trazer à tona um aspecto pouco discutido. A importância do grupo social formado pelas pessoas que se referenciam no PT , não só pelo seu tamanho, mas porque possui um papel determinante no destino da política em nosso país. Ocorre inclusive um espanto com a resistência daqueles e daquelas que votam fielmente no PT há muitas eleições presidenciais e se comprometem com ele, seja fazendo campanha nas redes, nas ruas, nos movimentos sociais ou se filiando ao PT. É uma gente curiosa essa que não desiste do PT nem diante de tantas notícias e discursos que desconstroem esse partido. 
O lugar das mulheres no PT
"O que mantém um eleitor fiel ao PT?" chegou a ser a manchete de um artigo na Carta Capital que cita três mulheres que possuem histórias e trajetórias bastante distintas, mas que estariam dentro desse espectro sobre o qual falamos. Há uma coincidência da reportagem com a nossa própria percepção sobre essa parte da população que resiste mais aguerridamente ao antipetismo, que é ser maioria de mulheres. A perseguição que existe no discurso de ódio às mulheres também é apropriada para fins de perseguição política, de forma que a misoginia se torna também uma categoria assessória ao antipetismo, como se viu nos ataques a Dilma. E isso pode explicar a maior participação feminina na defesa do mandato do PT cumprido por Dilma, pois as mulheres foram capazes de manter sua empatia com a vítima, reconhecendo na perseguição a Dilma parte da perseguição que elas mesmas sofrem. Outra das características da perseguição política é que quem se solidariza com a vítima passa a sofrer colateralmente os efeitos da perseguição. Isto tem o efeito, tal qual no assédio no trabalho, de impedir a solidariedade entre iguais. De forma que estas mulheres que se solidarizaram a Dilma, passaram a ser elas mesmas vítimas da perseguição política.
Assistimos mulheres petistas sendo convencidas de que só loucas e indisciplinadas seriam capazes de dizer 'Volta, Dilma'. Assistimos mulheres de esquerda sendo convencidas de que não deveriam estender a mão para reconduzir à presidência uma mulher - militante de esquerda - que estava (na presidência) executando uma tarefa e foi dela tirada, não por que a tenha executado mal ou criminosamente, mas como uma ação de perseguição política ao PT (e à classe que representa) executada com requintes cruéis de misoginia.
A mística feminista diz que mulheres não deveriam disputar posições entre si, mas chegarem a um consenso. Como Dilma presidenta não era consenso entre as mulheres de esquerda, o 8 de março posterior ao Golpe não prestou solidariedade a Dilma. A solidariedade a uma mulher de uma das organizações que construiam o ato foi negada, por não ser consenso. A quem serviu o consenso em não lutar pela volta de Dilma no pós-golpe se, depois do impeachment, o feminicídio escalou e Marielle foi assassinada? Impossível não considerar tóxico um ambiente que nega solidariedade a uma de nós. 
Entre os companheiros homens do PT e da esquerda é que nem chegou a ter alguma resistência pós-impeachment. Com exceção do PCO, que não tem grande importância sindical, passaram imediatamente a combater Temer como combatiam FHC. Mas o mundo mudou com o Golpe no Brasil, e Lula, ao invés de eleito, foi preso.
Novamente foram as mulheres, e Gleisi entre elas, a ponta mais avançada da solidariedade ao Presidente Lula e seu partido. Nas mobilizações, nas ruas, nas atividades auto-organizadas, é evidente uma maioria de mulheres. E as mulheres petistas têm sido muito solidárias, sofrendo junto e lutando por justiça para Marielle. No partido, são aceitas quando, diligentes e responsáveis, fazem as coisas funcionarem, mas sua dor e sua voz pouco conta e, quando decidem não calar, são estigmatizadas e silenciadas. Seria de se supor que encontrariam acolhimento pelo movimento feminista, mas nem isso. Para serem aceitas, têm que ficar quietas sobre o quanto dói ver suas lideranças sendo depostas ou presas injustamente, e ao invés de solidariedade encontram nas militantes de outros partidos ainda mais culpabilização ao PT.
Um dos aspectos mais dramáticos desta dor é a postura de lideranças petistas autorizando o antipetismo como uma variável válida para o debate democrático. O governador Rui Costa, que usou a Veja(!) para dizer que o PT errou em não apoiar Ciro e que não deveria exigir Lula Livre como condição para alianças é um exemplo da autorização que de dentro do PT se dá à falta de solidariedade com as pessoas que fazem parte dele. Felizmente a resposta do partido, sob a presidência de Gleisi, diplomaticamente reafirmou as decisões que nos orgulham de ser PT. A mesma que teve quando foi à posse de Maduro reafirmar o princípio de autodeterminação dos povos, base da solidariedade internacional.
Mas nem tudo é diplomacia, e existe uma militância aguerrida que reclama dos que não são solidários a Lula e Dilma. São mulheres, em sua maioria, quem se expõe. E têm todo o direito de reclamar! Mas ao reclamarem atraem para si, também, a perseguição.  Marcia Tiburi passou por isso quando concorreu ao governo do Estado do Rio. Em debate na UERJ, confrontou os que atacavam e não se solidarizavam com  Lula e os comparou a bolsominions. A fala foi tirada do seu contexto, editada e feita de piada pela equipe do Tarcisio, que ao invés de fazer vídeos contra Witzel, fez contra Marcia, aquela que reclamou da falta de solidariedade, mesmo sendo ela uma companheira da mesma organização feminista de Marielle.
Para qualquer maioria numérica se tornar maioria política,  precisa entender que a maioria numérica não ser naturalmente a maioria política já é resultado de uma perseguição política que concentra todas as outras. Seu contraponto é a solidariedade. A solidariedade, como foi dito por jovens estadunidenses na comemoração de aniversário do Lula em Los Angeles, no último dia 26, "não é caridade, condescendência ou colonialismo. Solidariedade é quando entendemos que nossos interesses são os mesmos de todas as pessoas que trabalham e são oprimidas em todo o mundo. Que sua liberdade é nossa liberdade, e que a nossa também é sua. Isso significa que nós queremos a liberdade de Lula porque a liberdade de Lula é a nossa liberdade. E isso acontece porque somos todos oprimidos pelos mesmos poderes capitalistas."
Invisível politicamente, essa militância que não desiste de defender os seus está adoecendo nos ambientes tóxicos que frequenta, inclusive dentro do próprio partido, que, fruto das pressões externas, acaba reproduzindo as dinâmicas de identificação com o poder abusador, que nega ao conjunto dos oprimidos um lugar de fala próprio, assimilando sua eficiência, no máximo, para seus próprios projetos.
O PT tem graves problemas internos, mas talvez seja ainda o partido menos afetado pela atual crise do sistema político brasileiro porque cresce em número de filiados. Um dos problemas que localizamos no PT é a distância imensa entre o que discutem os membros da estrutura partidária e a experiência real que passam as milhares de pessoas que dão sua cara a tapa defendendo o Partido. É como se falassem duas línguas diferentes. Quem chega novo ao PT é imediatamente convocado à assimilação pela cultura local e a decidir sobre coisas que não entendem, num lugar onde o seu saber pouco conta. Não deveria ser assim, porque se tem alguém que ainda não errou no PT foi a sua base social e não é responsabilidade dela que as coisas sejam tão confusas. O que a base do PT mostra, nos fatos, é que entende a solidariedade como a primeira resposta. E, por entender isso, sabe que se tem algo que não faz parte da lista de problemas do PT é Gleisi na presidência. Gleisi e as mulheres do PT são parte da solução.

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